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----- O que sei eu sobre Nano Vieira? Só há muito pouco tempo é que tomei conhecimento que se envolve com apaixonada dedicação no ambiente do Fado portuense. De resto, tão-só trocamos palavras de circunstância e cumprimentámo-nos com mútuo respeito sempre que houve ensejo de encontro. Por consequência, o que biograficamente adiante descrevo, baseia-se apenas em elementos que recolhi e considerei por me parecerem constituir uma interessante indiossincrasia à volta do consabidíssimo dito «mais vale tarde do que nunca». E neste caso, polemize-se o que se polemizar, o valimento está demonstrado.

----- Foi assim, como explícito está, que me referi a Nano Vieira há meio-ano atrás (Janeiro 2008). Desde aí, o convívio com ele foi mais estreito e naturalmente adquiri mais completo parecer sobre a sua personalidade. Sou mais velho do que o Nano um ano-e-pico. Um e outro, que já ali adiante bateremos a barreira dos 70, estamos obviamente fartos de conselhos e de inserções que acabam sistematicamente em zero e tantas vezes no próprio zero se desfazem.
-----Na circunstância, antes que me dê um súbito fanico e eu me vá para o silêncio definitivo, apraz-me declarar que o Nano é sobretudo uma pessoa muitíssimo organizada e com dinâmica capacidade para ser responsável na satisfatória correspondência de qualquer empreendimento em que se envolva. Se porventura houvesse 5 milhões (cerca de 1/3) de portugueses como ele, o Portugal 2008, em dignidade e labor, seria um país onde outro galo cantaria com auspiciosa esperança às manhãs do futuro.
----- Quanto ao que a Fado concerne, afirmarei tão-só que a esforçada lide da modalidade portuense, que tanto na decorrência lhe deve, empobrecerá imenso assim que tiver de perdê-lo. De resto, o Nano Vieira como intérprete integra-se com salutar brio na lista daqueles que não se submetem a imitações. Tinha eu, pois e a tempo, de efectuar este elucidativo acréscimo, agradecendo-lhe, inclusive em nome dos «delicados distraídos» - propositados ou não - o excelente serviço que tem prestado ao colectivo fadista do burgo tripeiro.


----- Juveniano de Freitas Vieira, tratado e conhecido por Nano Vieira, nasceu no Porto, na rua, hoje avenida, Fernão de Magalhães nº. 190, na freguesia do Bonfim, em 28 de Novembro de 1940. Com duas irmãs, é o filho mais velho de Reinaldo Vieira e de Maria Teresa de Freitas. É casado, vai para meio-século, com dona Maria Alice Neves Soares, sendo pai de três filhos: Ilda Maria, Juveniano Alberto, também tratado por Nano, e Albertina Maria, a Nena enre familiares e amigos.
-----Embrenhado no entusiasmo futebolístico que lhe empolgou a juventude, iniciou-se como atleta do F.C.Porto e de azul-e-branco atingiu apreciável notariedade e cotação sob o treinamento de Bella Gutman. Mais tarde transferido para a Sanjoanense, em 1972 decidiu emigrar para França a fim de mais e melhor fazer face à vida, passando então a jogar no Racing Club GT na categoria de séniores. Aos 37 anos, terminou a sua carreira desportiva como jogador-treinador do Sportif Rournan-en-Brie no escalão de veteranos.
----- Na ambiência da época, conciliando trabalho e desporto, começou por ser empregado comercial. Uma vez em França, o seu curso da Escola Industrial permitiu que o designassem encarregado numa firma de serralharia mecânica e de soldadura, função que desempenhou até reformar-se em finais de 1999.
-----Desde sempre devoto do Fado, porque um bichinho muito íntimo lhe mexia na alma, logo que vinha de férias a Portugal, não perdia a oportunidade de conviver entre os cantos e arpejos do rigoroso, estabelecendo amizade com os intérpretes que na altura actuavam nos mais renomados recintos portuenses: Candeia, O Fado, Casa da Mariquinhas, Taverna de São Jorge, O Requinte, Arcadas Dom Vaz e Pátio da Mariquinhas.
----- Após 28 anos de empenhada e estóica labuta no estrangeiro, de regresso à sua dilecta cidade, como sempre almejou, num dado dia ousou interpretar timidamente uns fadinhos em ambiente propício. Sentindo o incentivo do aplauso e do convidativo apreço, a pouco e pouco integrou-se na tertúlia fadista que de lés a lés se cultiva no Porto.
-----No actual decurso e no perpasse de algumas edições discográficas, especialmente apoiado por Manuel Barbosa, sob reportório clássico e versejos inéditos dos poetas portuenses A.Fernando Alves e José Fernandes Castro, apresenta e interpreta o Fado para aprazivelmente concitar, na regular companhia da esposa - também «doente-sádia» pela sentimental cantiga - agradáveis convívios e fruir as emoções da saudade entre o esplendor dos desabafos que livres se soltam sobre as delícias e as vicissitudes da vida nos seus tão diversos e ambíguos dilemas.

Quem com garra se agarra
aos ditâmes do seu Fado
merece ter a guitarra
sempre a trinar a seu lado.


Janeiro 2008 - Torre da Guia
Som = «Dá tempo ao tempo»


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